Leila Lehnen

 

É professora associada na University of New Mexico (Albuquerque, NM EUA). Ensina literatura brasileira e hispano americana contemporânea e está afiliada ao Latin American and Iberian Institute da University of New Mexico. Seu livro Citizenship and Crises in Contemporary Brazilian Literature será publicado pela Palgrave MacMillan.

 

Contato: llehnen@unm.edu

 

Currículo Lattes
 

Projeto de pesquisa

Cartografias móveis: mapeando as margens na literatura brasileira contemporânea

O conceito de uma “cartografia móvel” parece ser, à primeira vista, um oximoro. A ideia tradicional do “mapa” sugere uma representação estática de um espaço. Nesta representação, não somente o espaço, mas também os sujeitos que ocupam este lugar estão imobilizados na superfície da página (Massey 2005). No entanto, a geógrafa Doreen Massey propõe uma re-conceptualização do espaço e, por conseguinte, do “mapa”. Massey sugere que entendamos espaço não como uma superfície imóvel, mas sim como um campo simbólico onde várias trajetórias se cruzam e/ou se chocam. Tal entendimento espacial permite não somente o encontro entre diferentes sujeitos, mas também a percepção da “outredade” (social, cultural) de forma menos hierárquica. Pois, como indica Massey, se tradicionalmente os cartógrafos europeus localizavam as culturas, sociedades e historiografias não-ocidentais como objetos dentro do ambiente inerte do mapa, uma cartografia “móvel” permite que tais culturas e sociedades sejam inseridas dentro dos variados fluxos que compõem dita cartografia. A divisão entre objeto mapeado e sujeito/agente mapeador se desestabiliza. 
 

É precisamente esta ideia da cartografia móvel que surge e, por vezes, é problematizada em várias obras da literatura brasileira contemporânea. Neste ensaio pretendo analisar como três romances brasileiros recentes, O filho da mãe (Bernardo Carvalho, 2009); Do fundo da lua se vê o poço (Joca Reiners Terron, 2010) e O único final feliz para uma história de amor é um acidente (Chico Mattoso, 2010) narram a cidade através de uma cartografia móvel. Esta técnica condiz com a instabilidade dos personagens que habitam e transitam pelas urbes dos romances em questão. Em outras palavras, os/as protagonistas destas obras são sujeitos que estão entre nações e que ademais também questionam matrizes heteronormativas. Ao representar as diferentes metrópoles por meio de uma cartografia móvel, estes três romances abordam questões de inclusão e exclusão social, cultural e pessoal. São portanto textos que falam da conjunção entre espaço e cidadania. Interessantemente, os três textos são parte do projeto “Amores Expressos” da Companhia das Letras cujo objetivo é precisamente o “posicionamento” de uma história de amor dentro de um contexto geográfico específico (São Petersburgo, Cairo e Tóquio respectivamente). No entanto, os três livros de certa forma contradizem este projeto de “mapeamento” narrativo ao criarem histórias que enfatizam a mobilidade (espacial e de gênero).

 

Textos
What is Contemporary in Brazilian Literature?

 

Suburban Nightmares: The Liminal Spaces and Bodies of Fernando Bonassi’s Subúrbio 

 

The Dire Streets of Marcelino Freire’s Angu de sangue (2000)