Eu deixei o leito às 3 da manhã, porque quando a gente perde o sono começa a pensar nas misérias que nos rodeiam. (…) Deixei o leito para escrever. Enquanto escrevo vou pensando que resido num castelo cor de ouro que reluz na luz do sol. Que as janelas são de prata e as luzes de brilhantes. Que a minha vista circula no jardim e eu contemplo as flores de todas as qualidades. (…) É preciso criar este ambiente de fantasia, para esquecer que estou na favela. 

Fiz o café e fui carregar água. Olhei o céu, a estrela Dalva já estava no céu. Como é horrível pisar na lama. As horas em que sou feliz é quando estou residindo nos castelos imaginários.

 

Carolina Maria de Jesus, Quarto de despejo, 1960.

Em comemoração aos seus 20 anos, o Grupo de Estudos em Literatura Contemporânea, da Universidade de Brasília, lança as Edições Carolina, que pretendem reunir trabalhos de crítica literária e sobre a vida cultural contemporânea. Sem fins lucrativos, e concebida como uma homenagem a Carolina Maria de Jesus, a editora tem como objetivo principal dar visibilidade a estudos que ajudem a refletir sobre o momento atual, seja a partir da literatura, seja a partir de outras práticas culturais.

Os livros serão disponibilizados por um preço simbólico, exclusivamente em formato digital, pela Amazon.

 

Comissão editorial:

 

Berttoni Licarião

Gislene Barral

Graziele Frederico

Laeticia Jensen Eble

Lúcia Tormin Mollo

Patrícia Nakagome

Paula Queiroz  Dutra

Regina Dalcastagnè

 

Conselho editorial:

Florencia Garramuño (Universidade Nacional de San Andrés)

Gabriel Albuquerque (UFAM)

Luciene Azevedo (UFBA)

Helena González Fernández (Universidade de Barcelona)

Horst Nitschack (Universidade do Chile)

José Leonardo Tonus (Universidade Paris-Sorbonne)

Ricardo Barberena (PUC-RS)

Rejane Cristina Rocha (UFSCar)

Rosana Kohl Bines (PUC-Rio)

Vivaldo Andrade dos Santos (Universidade de Georgetown)

​Contato:

E-mail: edicoescarolina@gmail.com

Facebook: https://www.facebook.com/edicoescarolina

 

Tramoia: história de rendeiras

Regina Dalcastagnè

"Mas para que serve o tempo se não para esquecer? Um dia talvez seja impossível lembrar como acender um fogão de lenha ou como fazer uma renda de bilros. Quem sabe o que teremos aprendido depois de esquecer." Tramoia conta a história de três rendeiras de Florianópolis, focando a narrativa não em seu artesanato, mas em suas vidas, desejos, decepções e alegrias. As histórias são entremeadas, mostrando vozes de diferentes gerações e experiências.

A utopia da modernidade: Ouro Preto, Belo Horizonte, Brasília

Maria Zilda Ferreira Cury

"De quantas cidades se faz a cidade e de quantas maneiras se pode apreendê-la? Como apreender o imaginário de Ouro Preto, Brasília ou Belo Horizonte?" Maria Zilda Ferreira Cury trabalha com as identidades construídas para as três cidades que, segundo ela, foram centros do país em tempos e conceitos diversos. Ouro Preto, como núcleo da sociedade escravocrata do Brasil colonial. Brasília como foco de um projeto de modernidade e futuro das décadas de 50 e 60 no país. Por fim, Belo Horizonte vista como uma mediação entre o arcaico e o futuro da igualdade democrática que não se realizou.

Entrada proibida: o relato de um refugiado

Graziele Frederico

"Quando me perguntam qual a minha etnia ou minha religião, insisto sempre em dizer que sou só um homem e basta. Eu nunca esperei ganhar dinheiro e por isso mesmo não tinha pensado em sair do meu país. Mas eu acreditava na possibilidade de poder viver o meu estado de direito, eu acreditava em uma liberdade. Quando me tiraram isso, resolvi fazer como tantos outros."Entrada proibida: o relato de um refugiado conta a história de Dagmawy Yimer. Ele saiu da Etiópia no final de 2005, entregou a vida nas mãos de traficantes sudaneses e líbios. Foi preso e torturado. Pouco mais de um ano depois chegou a Lampedusa, a porta de entrada da Itália. Em 2009, outros como ele tentaram a travessia, mas não puderam desembarcar – naquele ano, a ilha siciliana fechou as portas para os imigrantes que chegavam da África.

 

Sexualidades questionadas em Caio Fernando Abreu

Mariana Moura

“Por que Caio Fernando Abreu é colocado como um autor tão representativo da temática homoerótica se os homossexuais não representam numericamente a maioria de seus personagens?”. Sexualidades questionadas trata do autor de "Onde andará Dulce Veiga?" e busca problematizar as questões da homossexualidade, buscando compreender por que a orientação sexual se converteu em característica para definir sua obra, além de analisar as ambiguidades de um autor que escreveu nos anos 1970 mas continua fascinando leitores.

Olhando sobre o muro: loucura e literatura

Gislene Barral

“A loucura não é apenas o que se vê dela na aparência, conduta, linguagem e gestos do louco. Ela é também construída por símbolos e representações, de acordo com os valores culturais e históricos de determinada cultura e sociedade”. Loucura e literatura são fenômenos que movimentam linguagens próprias e transgressoras. Elas desautomatizam a norma rígida, seja ela a da linguagem da razão, seja a da denotação. Olhando sobre o muro tem como foco narrativas da literatura brasileira, publicadas a partir da década de 1950 até a contemporaneidade, e a construção estética e ética de personagens loucas. Além da fala do outro sobre a loucura, o livro aborda, também, as autorrepresentações de Stela do Patrocínio e de Maura Lopes Cançado.

Bazar Oió: história de uma livraria

Lúcia Tormin Mollo

Sob os cuidados do livreiro Olavo Tormin, o Bazar Oió funcionou como ponto cultural de vanguarda para a cidade de Goiânia (GO), entre 1951 e 1974. Durante a ditadura militar, Tormin foi preso e a livraria precisou fechar as portas. A autora apresenta uma livraria que, fora do eixo nacional, exerceu papel relevante como espaço de resistência política e cultural. Essa história é pensada a partir do conceito de campo literário de Pierre Bourdieu.

Literatura e crítica no Brasil hoje

Jefferson Agostini Mello

A expansão da universidade, a passagem dos escritores e críticos pela academia, e os discursos sobre a literatura começam a se articular na década de 1980 e continuam até os dias atuais. Em Literatura e crítica no Brasil hoje, Jefferson Agostini Mello analisa o campo literário no Brasil contemporâneo e conclui que a produção crítica e a ficcional têm se mostrado restritas e restritivas. O autor reflete sobre o processo de maior institucionalização universitária da crítica e uma profissionalização da produção ficcional, além de seu crescente afastamento da esfera pública.

A escrita dos vestígios em Ana Miranda

Berttoni Licarião

Em “A escrita dos vestígios”, Berttoni Licarião apresenta uma abordagem da obra de Ana Miranda que se distancia do viés crítico do romance histórico para dar destaque às práticas intertextuais e ao trabalho com a linguagem de outras épocas. Tendo em vista a complexa sobreposição de discursos que caracteriza o romance “Dias e dias”, o autor traz à tona os pontos de tensão entre o texto de Miranda e suas fontes declaradas: a fortuna crítica, a biografia e a poesia de Gonçalves Dias. Insere, com isso, o romance no rastro de uma tradição de releituras da "Canção do exílio" que percorre mais de 150 anos de história da literatura brasileira, do Romantismo à contemporaneidade. Uma perspectiva de leitura que coloca a obra de Ana Miranda no centro dos debates sobre intertextualidade e paródia sem perder de vista a vasta produção da autora e seu lugar na literatura contemporânea.

Outros heróis: cenas etnográficas

Danilo de Oliveira

"Outros heróis: cenas etnográficas”, de Danilo de Oliveira, apresenta histórias de jovens que não costumam aparecer bem retratados nas páginas dos jornais e tampouco nos estudos acadêmicos. Mas, aqui, o olhar do antropólogo nos leva a conhecer personagens que, heróis em suas especificidades, ensinam, aprendem e se divertem no Núcleo Bandeirante do Distrito Federal, entre o final dos anos 1990 e começo dos anos 2000.

Traçados dissonantes: corpos femininos na literatura

Edma de Góis

O corpo é “matéria e pano de fundo para processos de compreensão do mundo, das sociedades e das mudanças ininterruptas da história”. Apoiando-se em diferentes áreas de conhecimento e nos conceitos de representação e gênero, Edma de Góis discute os sentidos dos corpos femininos inscritos nas obras de escritoras Adriana Lunardi, Carol Bensimon, Carola Saavedra, Cíntia Moscovich, Elvira Vigna, Livia Garcia-Roza e Tatiana Salem Levy. Indaga-se o que esses traçados dissonantes dizem sobre a crise da representação e os problemas do descentramento de gênero no campo literário brasileiro. Ao lado da palavra literária, obras de artistas visuais estabelecem um diálogo para pensar como as questões das corporalidades femininas são movimentadas por outras expressões artísticas.

A poética de resíduos de Carolina Maria de Jesus

Raffaella Fernandez

Em “A poética de resíduos de Carolina Maria de Jesus”, Raffaella Fernandez busca vislumbrar uma nova concepção da obra da autora, ultrapassando o que já se conhece de sua extensa fortuna crítica. Para isso, recorreu a arquivos em Sacramento (terra natal de Carolina) ou reunidos por familiares, além dos manuscritos da Coleção Carolina Maria de Jesus e Audálio Dantas. Assim, a pesquisadora se aproxima com sensibilidade deste espólio maltratado para nos trazer uma análise inédita sobre um dos mais importantes nomes da literatura brasileira.

Poéticas a céu aberto: o cordel e a crítica literária

Bruna Paiva de Lucena

“É fácil ver a chuva quando você não se molha”. A partir da frase trazida por um aluno, Bruna Paiva de Lucena propõe uma discussão sobre o que foi institucionalizado no país como Literatura, a partir da historiografia tradicional. Contrapondo os que observam de longe, com suas roupas enxutas, àqueles que veem de perto, molhados pela chuva, “Poéticas a céu aberto: o cordel e a crítica literária” questiona justamente a distinção hierárquica estabelecida entre cultura erudita e cultura popular, bem como a prevalência da escrita sobre a oralidade e o papel do cordel e da produção de mulheres cordelistas contemporâneas diante dessa crítica literária.

Afetividade das Mulheres Negras.jpg

Afetividades de mulheres negras no rap e no romance

Andressa Marques da Silva

Em “Afetividades de mulheres negras no rap e no romance”, Andressa Marques da Silva reflete sobre subjetividades, experiências e vivências afetivas de personagens femininas negras. O livro analisa representações literárias estereotipadas e hiperssexualizadas da afetividade dessas mulheres n’O cortiço, de Aluísio Azevedo, contrapondo-as àquelas elaboradas pelas vozes narrativas de Conceição Evaristo e Marilene Felinto, bem como da rapper Vera Verônika e do grupo Atitude Feminina. Na construção deste percurso, a pesquisadora se debruça sobre o papel da escrita literária de autoras negras no questionamento das imagens simplistas que tentaram instituir a incompletude afetiva como regra na experiência dessas mulheres.